Eu sou
medroso, inseguro e solitário.
9AM
9AM
tudo é incerto
e o incerto me angustia e apavora
viva morte a vida
andas, a passos lentos. andas e nada sentes - está largado sobre as horas; deixou-se ao tempo; perdeu-se na vida. andas e nada sentes, está oco, só. caminhas, inutilmente, em torno de uma vida que não é tua; caminhas, caminhas, no entanto não há caminhos. os pés doem, sem objetivo, anda anda e chega sempre ao mesmo lugar: este lugar, o princípio: o abismo do nada. tu não planejas nada, se chovesse… se fizesse sol, se o tempo estivesse nublado, nada faria de diferença, porque nada sentes: nada te importa. se faltar no trabalho, e se apaixonar; morrer; nada importa, nada faz diferença. tudo lhe é desinteressante, por isso percorre o nada das ruas, livre de pensamento. livre. estás sozinho na rua, os carros que passam; o barulho; nada te incomoda exceto a vida. andas, lento, quase sem vida. se morresse agora… se a vida se findasse neste mesmo instante nada haveria de ruim. haveria sim uma felicidade tímida, de enfim, acabar com essa existência morna. estás só, estás cansado. caminhas caminhas inútil. triste caminhar, triste travessia. estás largado onde nem mesmo o silêncio da poesia adentra. completamente só, de tudo. não há literatura, filmes, músicas, artes plásticas. não há arte. não há pessoas, nem animais. há somente a solidão, e o profundo despertar da vida. o inútil despertar da vida. estás só… triste adormecer; despertar. triste sonho de vida; triste sono. triste vida. andas e ouves somente a canção fúnebre da existência que toca através destas pequenas eminências de vida.
andas, morrerás em breve.
Eu seria desumana comigo mesma se eu não visse minhas olheiras crônicas e minhas costelas expostas. Eu seria desumana se não sentisse mais meu sofrimento. Eu n sei mais quem sou. Eu ainda sou?
8AM

